20.5.18

tudo por um fio

Minha grande inspiração é Henry Miller. E foi Rimbaud quem mudou a visão de mundo de Henry Miller. E eu, influenciado por Henry, vou em busca de Rimbaud e encontro Baudelaire mudando a cabeça de Rimbaud — e este virando a cabeça de Verlaine para todos os lados. É um círculo maravilhoso... Depois ainda chegam Lorca, Neruda e Vitalina; Sartre, Osho e Cioran; Paritosh e minha Mãe — todos pairando sobre mim como doce ameaça de vida. E todos me fazem virar a cabeça, deliciosamente. Até mesmo essa menina de azul me faz virar a cabeça. Aqui na praia, quase sempre sinto-me Dâmocles, e a espada — suspensa sobre a minha cabeça por um fio de seda — brilha seu fio nesta tarde de sol infinito. O vento a balança, eu olho para os lados, encaro o desafio e começo a sorrir.

Tudo por um fio... É neste momento — quando confio no risco — é neste exato instante-agora que a Vida chega. Porque, você sabe, a vida só chega no justo momento em que temos consciência de que ela está por um fio... Ou dois!

17.5.18

ninguem mais

Houve épocas,
quando eu era menor,
quando eu era pequeno,
em que algumas pessoas, muitas pessoas,
diziam me amar,
mas na verdade elas me tosquiavam,
atavam minhas mãos, tutelavam meus desejos,
me sufocavam...

Só aplaudiam meu bom comportamento
e minha submissão.

Diziam me amar,
mas contraditoriamente me impediam de ser livre.

Cerceavam minha naturalidade,
matavam minha ousadia,
e amputavam minha glória.

Exigiam que eu só obedecesse,
como se Deus jamais morasse em Mim.

Mas agora,
agora ninguém mais consegue
sufocar o meu grito de liberdade;
ninguém mais quebra
minhas asas de pássaro livre.

Ninguém mais.


Ou me amam de verdade
e voam comigo,
cada vez mais alto e mais fundo
— ou ficam no chão,
simplesmente.

15.5.18

tia ana

Tia Ana. Certa vez, por quase dois meses, ela repartiu comigo seu próprio quarto, para me ajudar a estudar quando meu pai quase me tirou da escola a fim de transformar-me em dono de restaurante. Eu tinha dez anos. Jamais me esquecerei. Ela, não só por isso, foi muito boa para mim. Ela dizia que, para uma boa convivência, a gente deve sempre compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada pessoa. Por isso, eu agora vou perdoar os três maiores... dela!

Mas, antes, tenho que pensar um pouco, pois só me lembrei de um. Será que ela tinha três? Entretanto, aproveito para te perguntar: no caso dos teus amigos, parentes e amores — você consegue compreender e perdoar os três maiores defeitos de cada um deles?

13.5.18

Dia das Mães

Era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de alelúias, era hora de metáforas e loucuras. Era uma casinha de madeira e primavera ao lado de uma roseira branca no finzinho de uma rua principal. Como toda mulher inocente, minha Mãe havia sido deflorada por um delicado Inspírito Santo. Era madrugada e ela estava sozinha outra vez. Foi então que essa Mulher me deu a Luz. Era o começo de uma história de Amor.

Antes do leite, antes do açúcar, antes do arroz com feijão — eu queria mesmo era o amor que ela me dava. Este foi meu primeiro e mais querido alimento: o Amor. Como se pode notar, eu sempre me alimento de Amor e de Mãe, de risco e paixão, de glória e loucura, flores, estrelas, matemática, poesia, lógica e mulher. E liberdade — é claro.

Ela jamais quebrou as lanças da minha ousadia, e nunca pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ela me apoia com entusiasmo, incentiva os meus saltos profundos e me aplaude todas as conquistas. Compreende os meus gestos, mesmo quando parados no ar. Ela me aceita como sou, inteiramente. E me faz acreditar, cada vez mais, que o verdadeiro amor é a união delicada de duas espontaneidades, a fusão poética de dois devaneios. Ou mais.


Até hoje é assim a minha Mãe. Simpática, amorosa e cheia de alegria...

11.5.18

passaro surpreso

Há dias em que é preciso que eu te perca inteiramente. É preciso que eu siga o que me pede o coração apaixonado — e o que suplica um novo grande amor aos pés da nova cama. Tua imagem, minha flor, fumaça escandalosa desprendida de si mesma, some em meio à volúpia da minha próxima lembrança. Então, te esqueço — carinhosamente. Mas, de repente, num voo alado de pássaro surpreso, entro em mim pra te buscar. Se te encontro, a busca me alucina intensamente, e se me encanto, ao contrário, é meu verbo que engravida o teu espanto.

7.5.18

previsoes de 1995

Texto que está na primeira edição do meu livro Solidão a Mil, 1998, página 352.

Em 1995, como analista de sistemas do Grupo Itel, fiz uma palestra sobre a viabilidade de se utilizar o mesmo atual cartão eletrônico bancário como cartão único, universal, conectado à rede que eu chamo de U-Net (sucessora da internet). Desde que melhorado e com um chip controlador poderoso, nele estariam todos os nossos dados básicos: Identidade, cadastro médico, CPFG, carteira de habilitação, registros profissionais, currículo escolar, efetivos controles de aposentadoria, histórico amoroso, saldos bancários, preferências, livros lidos, contas pagas e a pagar, pendências judiciais, viagens, agendas, senhas de acesso. Aproveitaremos a atual estrutura de informática dos três grandes bancos que restaram. Uma Digital Station (os antigos PC, MC, Notebooks) poderá ler esse cartão via rádio (e mais tarde raios gama) à distância.

Servirá também como cartão telefônico, substituindo o antigo celular. Suas coisas pessoais, sua casa e seu carro, não poderão ser acessados sem a inserção autorizada do respectivo cartão, mediante impressão digital. Por exemplo, será abolido, por desnecessário, esse costume medieval de um guarda rodoviário interromper nossa viagem para pedir documentos. Até o excesso de velocidade ficará nele registrado, sendo a respectiva multa debitada imediatamente da sua conta bancária. Tudo será online.


Isto foi em fevereiro de 1995. Um dia chegaremos onde eu então previa. Liberdata Biopersona era o nome do Projeto.

4.5.18

natureza da paixao

Paixões que se dizem eternas são mentirosas. Enganam a vítima. São apenas pedras frias que trazem frustração e tristeza, e nas quais tropeçamos. Acabam se tornando insuportáveis. Ao contrário, as paixões verdadeiras, as deliciosas — as passageiras! — só nos dão prazer e alegria. Mas tem gente que pretende transformar as passageiras em duradouras. Apaixona-se em novembro, e já quer fazer planos para o Natal... É a consagração da insegurança. O abandono do Princípio da Incerteza. O medo do risco e da perda. Ora, se nossa primeira paixão já fosse eterna, teríamos uma só — pelo resto da vida... Já imaginou a chatice?

A natureza da Paixão é ser fugaz. Esticá-la no tempo é torná-la insossa e rarefeita.

Eu gosto de dizer que as paixões devem ter o brilho de um relâmpago — e a mesma duração. Relâmpagos não ficam acesos para sempre. Você vive um, e em seguida risca outro! Mas, não se preocupe: ninguém é obrigado a amar o risco e ser brilhante todo dia.

3.5.18

salmo 77

Hoje minha Mãe ligou-me de manhã só pra me dizer: "Pegue a Bíblia e leia o Salmo 77. Lá diz que às vezes temos que ralhar com Deus..." Fazê-lo encostar seus ouvidos em nossa boca para que ouça bem o que temos a lhe dizer. Quando o Velho se faz de surdo, temos que levantar a Voz. Quando Deus dorme, temos que sacudi-lo e acordá-lo, respeitosamente.

Mas — eu pergunto — e se Ele estiver sonhando?

1.5.18

eu

Na Filosofia-USP eu sempre me defini como indefinível. Porém, depois, ao estudar computação e me tornar um analista de sistemas, senti que essa expressão também me era imprópria, pois meu universo se expandiu, e comecei a supor que eu era um "analista de circunstâncias". Com o tempo, virei um Vendedor de ideias — e era exatamente isso que dizia o meu cartão de visitas. Acontece que eu sempre mudo. Aliás, como diz o meu poema: Só o que está morto não muda. Então, e por isso mesmo, eu hoje passo a definir-me como um Descobridor de Competências.

Mais tarde eu volto aqui para explicar esse conceito.

29.4.18

dia da mae

Era um dia de duplas esperanças. Era uma noite de luar azul escandaloso. Era um sábado de alelúias, era hora de metáforas e loucuras. Era uma casinha de madeira e primavera ao lado de uma roseira branca no finzinho de uma rua principal. Como toda mulher inocente, minha Mãe havia sido deflorada por um delicado Inspírito Santo. Era madrugada e ela estava sozinha outra vez. Foi então que essa Mulher me deu a Luz. Era o começo de uma história de Amor.

Antes do leite, antes do açúcar, antes do arroz com feijão — eu queria mesmo era o amor que ela me dava. Este foi meu primeiro e mais querido alimento: o Amor. Como se pode notar, eu sempre me alimento de Amor e de Mãe, de risco e paixão, de glória e loucura, flores, estrelas, matemática, poesia, lógica e mulher. E liberdade — é claro.

Ela jamais quebrou as lanças da minha ousadia, e nunca pensou em cortar-me as asas de pássaro livre. Ela me apoia com entusiasmo, incentiva os meus saltos profundos e me aplaude todas as conquistas. Compreende os meus gestos, mesmo quando parados no ar. Ela me aceita como sou, inteiramente. E me faz acreditar, cada vez mais, que o verdadeiro amor é a união delicada de duas espontaneidades, a fusão poética de dois devaneios. Ou mais.


Até hoje é assim a minha Mãe. Daqui a pouco vou ligar pra ela.

26.4.18

reparto tudo

Reparto tudo: reparto o beijo, o abraço, a lua, o chocolate, o pão e o queijo; reparto o amor e o vinho, as flores e as estrelas. Reparto e compartilho. Tudo. Às vezes, simultaneamente... Reparto, com muito mais ênfase ainda, a felicidade, a alegria e o prazer. Porque essa coisa de relação fechada possessiva é lamentável. É uma coisa que eu suponho ultrapassada — pelo menos nas sociedades mais desenvolvidas. Ou, melhor, naquela parte culturalmente mais desenvolvida das sociedades. Essa coisa (ciúme, posse, etc.) na verdade é um horroroso "negócio": Aquilo que nega o ócio. Nega o prazer, e nega o amor. Nega a liberdade.
Portanto, se você não encontrar razões para ser livre, invente-as.
E viva a Vida.
Ou não.

21.4.18

general poeta

Quando eu tinha seis ou sete anos, minha Mãe comentou comigo as palavras da mãe de Picasso, sobre o filho ser padre ou ser soldado. Entretanto, disse-me que não gostaria que eu fosse nem padre nem soldado. E se, por acaso ou por destino, eu seguisse uma dessas carreiras, teria que ser, no mínimo, papa ou general. Mas ela queria mesmo é que eu fosse um poeta. Um artista das palavras doces. Só isso.

20.4.18

jardim que falo

Eu modifico perfumes e delícias em palavras e velas — e planto meu verbo num jardim que fala. Há um canteiro de ternuras e de flores no meu corpo ensolarado. Por isso é que transformo em arrepios o que me pede a Natureza a todo instante.

16.4.18

se faz sol

Se a palavra me fere, não sou eu que desmaio — ela que perde o sentido.
Se um verbo me agride, não revido: me esquivo.
Se quebram meu brinquedo, eu conserto.
Se me roubam o carro, compro outro.
Se furam minha bola, tenho mais.
Se acaba o vinho, tomo leite.
Se chove, danço na chuva.
Se faz sol, me bronzeio.


Para mim, tudo é motivo pra viver.
Só se um dia me faltar a Liberdade é que me sentirei morto!

15.4.18

o coracao do teu amor

O coração do teu amor tem que ser livre, para que nele pulse o sangue do imaginário e da fantasia. O coração do teu amor em que ser livre, para que nele difundam-se as cores e as delícias da paixão descontrolada. O coração do teu amor tem que ser livre, porque, senão, estrangula-se o Amor, estraçalha-se a Beleza, e morre o Espontâneo. E desaparece então qualquer possibilidade de Prazer. O coração do teu Amor tem que ser livre — simplesmente.

13.4.18

filho do big bang

Naqueles tempos, Ele era Um dentre muitos pregadores. Mas se destacou pelo estilo. Pela criatividade. Garantia ser filho direto do Criador do Big-Bang. Suas propostas eram radiciais. Dizia ser impossível servir a dois senhores ao mesmo tempo. Olhai as aves do céu: não colhem nem armazenam. Olhai os lírios do campo, que não tecem nem fiam, e o Senhor tudo lhes provê. Eu não vim trazer a paz, eu vim trazer a guerra. Gananciosos não merecem conhecer o céu. Deus está lá, onde está o teu coração. Ele falava coisas assim, meio malucas... Ele adorava metáforas e parábolas. Expulsou negociantes do templo. Esqueceu que era filho de um pobre marceneiro e de uma dona de casa. Os irmãos o detestavam. Transformou água em vinho branco. Beijava Madalena em público. Ouvia vozes. Fazia milagres. Mais fácil um camelo passar por não sei onde. Nunca escreveu nada: suas palavras eram jogadas ao vento. Só quem tem ouvidos que as ouça. Ficava insultando meio mundo. Um dia o levaram ao topo da montanha e quase o jogaram precipício abaixo... Eu gosto desse cara. Notadamente por suas maravilhosas idéias de grandeza, era um gênio. Acho até que vou convidá-Lo para sentar-se aqui — ao meu lado direito.

9.4.18

doce chamado freud

Certos acontecimentos só são mensuráveis no seu próprio tempo. Nem antes, nem depois. Por exemplo, minha Mãe faz um doce chamado Freud. Leva Maizena, clara de ovos novos, banana caturra, calda de açúcar fino — e traz alegria e lembranças. Uma delícia. Amo essa mulher, tanto, que às vezes fico bêbado de Mãe. De tanto que a tomo nos braços em arco que me embriago dela por mim. E sempre me acordo no interior, mesmo quando viajo para fora. Mas há dias em que me acordo duplamente no interior — como hoje. Estou na casa onde nasci de novo, e sinto cheiro de café. Um galo, índio, de cristas excitadas, canta dentro de mim, bem pertinho, como se cantasse na minha infância. Ouvi tanto esse galo cantar que já lhe sei o co-co-ri de cor...

7.4.18

inveja

Hoje quero escrever um breve texto sobre essa coisa horrorosa chamada inveja. Vou começar alterando uma frase genial de José Ingenieros, para deixá-la mais ou menos assim:

A inveja é o modo mais aberrante de prestar homenagem à superioridade alheia.

Escrevi algo sobre as invejas sublimada, neurótica e perversa. Contudo, ainda estou refinando o texto, pois passei a considerar desnecessária tal classificação. No fundo, toda inveja é perversa. Está prevista e condenada nos Dez Mandamentos, e expressa entre os Sete Pecados Capitais. Ou seja: imperdoável até mesmo por Deus! Ela também é condenada em todos os livros e códigos que tratam da ética nos relacionamentos humanos. Shakespeare acabou colocando-a no rodapé da moral. A inveja é condenável, em si — e em todos os sentidos!

Roedores da glória alheia, os invejosos são simplesmente abomináveis.

5.4.18

sangrando

CORAÇÃO SANGRANDO

Hoje um coração à deriva —
sangrando — me pediu socorro. Mas logo vi que sangrava em falso, e sangrava tanto, que sangrará de novo se eu socorrê-lo assim. Portanto, é melhor que sofra um pouco pra ver se aprende. Porque não era um simples coração coitado: era um bobo coração ciumento, que sangrava muito por causa errada. Ele tinha perdido o objeto amado, e só queria um outro, substituto, que lhe fosse escravo... Então, ajudar por quê? Não vale a pena estancar um sangue que é mal vertido. Não posso nunca vender meu corpo como remédio.

Dei-lhe um band-aid.

2.4.18

fazer bem assusta

Minha filosofia de vida pode fazer muito bem para certas pessoas com as quais convivo. Acontece que, exatamente por lhes fazer tão bem, pode também lhes fazer mal... Minha presença e meu estilo de viver pode às vezes desestabilizá-las. Porque eu lhes abro novos horizontes, um leque enorme, fascinante, de opções inesperadas e gostosas.

Acontece que a liberdade assusta. Elas estavam quietinhas, sossegadas em sua própria escravidão emocional, aninhadas nos seus próprios preconceitos, abraçadinhas às suas crenças opressivas — e eu venho lhes dizer que a liberdade é possível. Eu venho lhes dizer que o amor é possível. Que a felicidade é possível.

Então, elas começam a se questionar. Começam a rever os seus conceitos... Algumas criam coragem e chutam seus medos inexplicáveis. Suas cabeças viram corações enlouquecidos. Suas estruturas, antes tão estáveis, começam a ruir. Suas bases tremem. Relações se desfazem com facilidade espantosa. Seus "amores" perdem o sentido. Seus deuses dançam...

Porém, nem todas estavam preparadas para esse fascinante mundo novo que se abriu de repente. E algumas querem de volta o mundo antigo. Porque sentem falta da segurança, daquela quietude, daquela paz de cemitério. Daquela velha vida. Sentem falta da comodidade. Afinal, ser livre dá trabalho... Muito trabalho.

Mas ser livre é uma delícia.
Experimente!

1.4.18

nova pascoa

Segundo a Bíblia, Jesus ressuscitou após três dias da sua morte biológica, num processo de religação do seu corpo à sua alma. E na Páscoa celebra-se exatamente isto: a volta de Jesus ao mundo material, levantando-se do seu sepulcro, e ressurgindo perante Madalena, primeiramente (João 20:10-18). Esse retorno, essa passagem de volta a este mundo, essa ressurreição é comemorada na Páscoa. Tal concepção de ressurreição está na Bíblia, explicitamente, e é assim entendida por todos os teólogos e cristãos nos últimos dois mil anos. Mas eu defendo uma tese diferente. Para mim, a verdadeira ressurreição de Jesus foi quando Ele morreu. Quando ele deixou esta vida e renasceu para a outra. Para aquela de onde ele supostamente veio. Esta é a minha tese. Como Jesus foi o maior criador de metáforas, um mestre das parábolas, entro no jogo dele e crio uma nova. Quando se diz “ressuscitar”, isso, segundo aqui proponho, quer dizer “renascer para a outra vida” — não para esta. Não é o retorno a esta, mas o retorno à outra. A Páscoa é a Passagem — desta vida para a Outra. Desta, em que Jesus viveu por trinta e três anos, para a Outra, de onde ele teria vindo. Nesse sentido, engana-se quem pensa que a ressurreição de Jesus significa o retorno do seu corpo a esta vida. Em verdade, Jesus ressurgiu para a outra vida: a vida espiritual. O corpo de Jesus, nessa perspectiva, não tem a mínima importância, pois não é o corpo que ressurge: é a alma que se liberta.

A Páscoa também está ligada aos antigos festivais da primavera (no hemisfério norte). Assim como em outras datas festivas já existentes, como o Natal, a Igreja aproveitou esses eventos e anexou-lhes algumas comemorações cristãs. Deu-lhes formas novas. Um método inteligente de fazer propaganda, pois começar do zero uma comemoração grandiosa custaria muito. Nesse período também os judeus já comemoravam seu êxodo do Egito durante o reinado do faraó Ramsés II, quando os judeus passaram da escravidão à liberdade. Uma belíssima metáfora. Tal qual Jesus saindo da escravidão do corpo e passando para a liberdade do mundo espiritual. Ou seja, de acordo com essa minha concepção, quando morremos biologicamente é que ressuscitamos. A morte, repito, é a Passagem. A morte é a Páscoa. A morte do corpo — entenda-se. Nesse sentido, portanto, a verdadeira ressurreição de Jesus aconteceu ainda na Cruz, e não no sepulcro, três dias depois, como está na Bíblia, e como erradamente dizem os teólogos, padres e pastores. Aliás, eu não creio nadinha nessa história de um corpo físico, morto, voltar à vida!

A Bíblia relata dez casos de ressurreição: três no Antigo Testamento e sete no Novo. A Bíblia (em Mateus 28:5-6) diz claramente que Jesus ressuscitou dos mortos: "Mas o anjo disse às mulheres: Não temais vós; pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Não está aqui, porque ressurgiu. (...) Vinde, vede o lugar onde jazia." Ou seja, segundo a Bíblia, o corpo deixou o sepulcro e viveu novamente. E depois teria sido visto, andando, por muitas pessoas, incluindo Madalena e os apóstolos.

31.3.18

31 de marco

Nenhuma ditadura é mais forte que um poema de amor. Então Eros me abre os olhos de novo e vejo, sorrindo ao meu lado, essa menina por quem ontem me apaixonei à luz da lua cheia — e que será, por uns tempos, meu mais recente amor eterno. E me esqueço completamente que hoje é dia 31 de março, data em que se "comemora" um golpe militar que jogou o Brasil nas trevas! Mas é bom não esquecer que a Ditadura só caiu depois da eleição indireta de Tancredo Neves em 19 de janeiro de 1985. Portanto, foram 21 anos de ditadura. Horrorosa ditadura militar... E só tivemos eleições (não muito) livres em 1989! A ditadura foi a Idade Média do Brasil. Havia censura à imprensa. Livros eram queimados. Havia tortura, prisão e medo. A Cultura entrou em recesso. Era a lei da baioneta. Pensar diferente era proibido. Se já houvesse internet aquele tempo, por um blog como este eu provavelmente seria preso e torturado...

30.3.18

jesus na cruz

Dizem que tem aí um arruaceiro que vive se metendo em belas encrencas. Anda sempre em companhias duvidosas e até já foi condenado pela Justiça. É contra o casamento e rejeita seriamente a hipocrisia. Os conservadores o detestam. Vive contestando a Autoridade. Dizem que ele costuma beijar uma adolescente em público, cujo nome é Madalena. Nunca trabalhou — mas festa é com ele mesmo. Dizem que é bonito, cabeludo e adora dançar... Corre até um boato que na semana passada, a pedido da própria mãe, chegou a transformar água em vinho branco. Deve ser um feiticeiro genial. Um poeta, um mago, talvez um deus! Dizem que ele trepa num caixote de madeira ali na praça, e fica falando coisas que ninguém entende, criando parábolas mirabolantes:
"Olhai os delírios do campo..."

Dia desses o viram balançando numa cruz.

29.3.18

quanto dura um grande amor

Dizem que eu não assumo a "responsabilidade" por uma relação amorosa duradoura. Ora, não sou eu quem determina o quanto vai durar a relação: — É o tempo. É o conjunto das vontades, é a "precisão do sacrifício". São os medos que não temos, mas sobretudo a coragem. É a forma da procura e o estilo de sonhar. A reciprocidade objetiva, o conceito pessoal da loucura inquietante. É a relação profunda entre as almas envolvidas no projeto. Na verdade, o que determina mesmo a duração de um grande amor — são as circunstâncias. Portanto, não me culpem por ser breve. Às vezes, brevíssimo. Afinal, meu coração não tem juízo...

26.3.18

k-misster

Aos 22 anos eu montei minha primeira empresa. Uma confecção. O nome era K-misster, e ficava na Avenida Nacionalista, número 100, Itaquera, SP. Aluguei um galpão, comprei doze máquinas na rua São Caetano, montei um bom estoque de tecidos, que comprei na 25 de março, contratei dezessete costureiras e soltei o meu barquinho em alto mar. Eu também desenhava os modelos. Cheguei a vender, entre outros, vários lotes para as Lojas Piter, que ficavam ao lado do Teatro Municipal. Mas a fábrica era muito longe, e eu queria curtir a vida e estudar filosofia... Depois de quatro meses larguei tudo. Dei as máquinas para as costureiras, comprei um carro conversível — e saí pelo mundo. Viver novas experiências.
Deu certo.

24.3.18

21.3.18

quatro coisas

Eu hoje te desejo as quatro coisas mais importantes do mundo: Tempo, Amor e Liberdade — e uma saúde inabalável!

E o meu conceito de Saúde vai muito além do corpo meramente físico. Não basta ter um corpo em forma, com tudo funcionando bem. Não basta ter o cérebro e os rins, o coração e as glândulas, as artérias e os músculos, o pulmão e o fígado — todos os órgãos, enfim — funcionando bem. É preciso também ter um crescimento emocional, intelectual e, principalmente, espiritual. Aliás, para mim, a Vida de um corpo (qualquer corpo) consiste na presença gloriosa do Espírito. Sem este, aquela se vai.

Mas às vezes me perguntam por que eu defendo como indispensável o crescimento intelectual — além do emocional e do espiritual. Minha resposta: porque a burrice também é uma doença. Tão imperdoável quanto a ira, a gula, o ódio, a inveja, o apego e a maldade. As igrejas costumam chamar essas coisas todas de "pecados", mas para mim são apenas doenças. Curáveis... Plenamente curáveis. Basta que o doente cresça. Emocionalmente, intelectualmente e espiritualmente. Fácil? Não muito. Mas não impossível.

19.3.18

jogo de cena

Depois de acender estrelas no teu céu da boca, depois de vasculhar os teus encantos, depois de dançar nos teus mistérios, depois de ultrapassar os teus limites — acabei concluindo que só a união de duas grandes espontaneidades pode gerar, e manter, por algum tempo, um belo caso de amor. O resto — o resto é jogo de cena, simplesmente.

18.3.18

tiro na testa

Às vezes, um tiro na testa é mais eficiente que um Diálogo de Platão.

Inspirado em Che Guevara, um dos meus maiores heróis, cuja mais bela biografia, escrita por Jon Lee Anderson, quase mil páginas, é um marco. Também inspirado pelos sanhaços que hoje de manhã vi brigarem por uma banana, em vez de dialogarem entre si. Por acaso, então, encontrei essa frase tiro num dos meus blogs, e resolvi republicá-la. Assim, sem mais. Sem propósitos especiais, exceto aqueles que Deus possa ter tido em meu nome. Ou em nome de Che...
Nos comentários eu explico os inevitáveis "tiros na testa" que às vezes damos — metaforicamente, é claro.

14.3.18

frases 212 228

‎211. Aceitar o inevitável é uma sábia decisão.
212. O auge de uma paixão está sempre no começo dela.
213. Não espere a graça do cisne no pescoço de um pato.
214. Em vez de salvar a relação, eu prefiro salvar o meu Amor.
215. Só tem uma coisa pior do que morrer: é viver pouco.
216. Sempre danço conforme a música. Mas, antes, escrevo a partitura.
217. Toda emoção é produto de um raciocínio.
218. Quem jura amor eterno deveria ser processado por estelionato emocional.
219. Toda musa já traz uma víbora dentro de si. É só uma questão de tempo.
220. Dispenso a compreensão daqueles que não conseguem me compreender.
221. Se, numa relação de amor, a verdade entristece — minta com alegria.
222. Prazer não sentido é prazer perdido. Irrecuperavelmente perdido.
223. Se o amor não pode ser livre, não deve ser nada.
224. Ceder uma vez só é muito mais difícil do que ceder nunca.
225. É um desperdício imperdoável ter um grande coração, e deixar nele um único amor.
226. A capacidade de questionar as próprias convicções é um atributo dos seres mais elevados.
227. Eu não vejo o cotidiano: eu vejo a eternidade.
228. A melhor realidade é aquela que nasce de um sonho.

12.3.18

temos nossas diferencas

Temos nossas diferenças, é claro, pois Deus não é justo na distribuição da bravura. Cada um de nós tem seu próprio sistema de valores e seus pontos de vista. Cada um de nós é um ser único. Somos in-divíduos. Respondemos a estímulos iguais de formas diferentes. Lembre-se: Hércules estrangulou a serpente horrorosa ainda no berço, enquanto Íficles, seu irmão gêmeo, fugia em desespero. Então, antes que o meu barco singre os mares desta vida, encho-o de coragem e de remos, iço as velas, desfaço todos os planos, jogo longe a bússola da normalidade, rasgo esses mapas que me deram, crio meu próprio Destino — e me afundo no desejo de amar.

Quero de novo criar uma tempestade no teu coração, meu Amor!

11.3.18

nao penso que te possuo

Não penso que te possuo — nem quero te pertencer. Não importa se isso dure, nem é preciso que se acabe. Não sei se será sempre tão bom assim, e nem busco certezas eternas. Mas, como as delícias do agora me encantam — e bastam — até posso dizer que já estou começando a te amar. Por isso eu me entrego como um ponto de luz nos teus olhos de mar e um toque sutil na tua pele de Amor. Pois eu só te quero como um risco delicado, um perigo iminente, transitória gostosura — nada mais. Eu não te quero compromisso: eu te quero dança. Te quero paixão e alegria. Sem excesso de presença e sem sufoco da esperança. Desse modo, nem meu mundo termina aqui, nem você será prisioneira de mim. Afinal, somos livres um do outro — para sempre.

10.3.18

9.3.18

perda

Você só perde aquilo a que antes havia se apegado. Quando você deixa de apegar-se, nunca mais perde coisa alguma.

8.3.18

mulheres

MULHERES

Não me bastam os cinco sentidos para perceber-lhes toda a beleza. Não me bastam os cinco sentidos para viver com totalidade o mistério profundo que elas trazem consigo. Eu tenho é que tocá-las, cheirá-las, acariciá-las, penetrar-lhes o sorriso, sentir o seu perfume, beijar-lhes o céu da boca, ouvir suas histórias, transformá-las em deusas. Tenho que dar-lhes o amor que o meu corpo conduz e sustenta-me a alma. O belo amor natural por todas as coisas do mundo. Como espelho de paixões em labareda, tenho que sentir nos seus olhos um raro brilho diamante.

Eu as respeito e as venero — com a graça de um cisne que dança num lago tranqüilo e a ousadia de um touro selvagem recém-despertado. Não lhes faço perguntas, não as pressiono por nada, não lhes tiro a liberdade, não quero mudá-las jamais. Sempre imagino o que estejam sonhando, e pulo de cabeça no sonho delas. Cavalgo o vento para visitar-lhes as razões, as emoções e as loucuras. Como um deus escandaloso e surpreso por sua própria criatura, entro no coração de cada uma delas, deliciosamente, como se entrasse numa pulsante catedral. Mergulho na essência dos seus desejos e cada vez me espanto mais com tanta fantasia. Os cinco sentidos, por não serem precisos, ainda não bastam, e preciso mais do que isso para compreendê-las.

Toda mulher é silenciosa por dentro. A existência pura se manifesta em cada detalhe. Assim na terra como no céu, amar as mulheres é uma experiência religiosa. E eu as amo, fina substância, como deve amar quem ama de verdade — incondicionalmente. Sem ciúmes. Eu amo as morenas, as loiras, as baixinhas, as altas, as lindas, as quase feias. Amo as virtuosas, as magras, as gordinhas, as diabólicas, as tímidas — e até as mentirosas. As iluminadas, as pecadoras, e as santíssimas. Amo as virgens, as pobres, as ricas, as loucas, as muito vivas, as inocentes. As bronzeadas pelo sol, e as branquinhas. As inteligentes — e as nem tanto. Desde que sensíveis, eu amo as jovens, as maduras, as solteiras, as casadas, as separadas. As bem-amadas, e as abandonadas. As livres, e as indecisas. E se me dessem o poder, o tempo e, principalmente, a chance, eu a todas elas daria, todos os dias, um êxtase cósmico, poético e sublime.

Apanharia flores silvestres, tomaria sol com todas elas, todo dia. Andaríamos descalços na areia, contemplaríamos crepúsculos cor de abóbora, jantaríamos à luz de velas, dançaríamos, tomaríamos vinho branco, olharíamos as estrelas. E eu lhes faria poesias de amor. Puro como um anjo, amaria cada uma delas eternamente — uma por vez. Com delicadeza, com doçura, com profundidade, com inocência. Entusiasmado, como se cada uma fosse a única. Como se no mundo inteiro não houvesse mais nada, nem ninguém.

Todas as noites, eu passaria cremes e encantos no seu corpo. Falaria sobre fábulas, contaria histórias românticas, as veria dormir. Ouvindo Beethoven, velaria por um tempo o sono delas, e, de madrugada, antes do sol raiar, antes do primeiro pássaro cantar, as cobriria com o resto de luar que ainda houvesse, e sairia em silêncio. Como um felino lógico, sensual e saciado, deslizaria pelo cetim azul-celeste dos lençóis, saltaria por sobre todas as metáforas — e sorrindo iria embora.

Enfim, se por acaso fosse Deus, eu com certeza não mais ficaria cuidando do universo e dessas outras coisinhas banais. Não ficaria controlando o destino das pessoas, o tempo, os compromissos, a pressa, o caminho dos planetas, a economia, o cotidiano, o infinito, os genes, a Internet, a geografia...    Não!

Eu somente iria amar as mulheres, como elas merecem — e como nunca foram amadas.


Só isso, definitivamente. Nada mais, nada mais!

4.3.18

aula de logica 2

Se, num hipotético desastre aéreo, você caísse num deserto com apenas um balde de gelo — nada mais — quantos dias você acha que conseguiria sobreviver?

Esta é uma das perguntas exemplares que faço em palestras a diretores e gerentes. E também a adolescentes ou estudantes da escola primária quando lhes dou uma breve aula de Lógica. Há outras. Tem uma alegoria interessante sobre papel higiênico que agrada muito ao público. Pois é, para falar de Lógica, não é preciso citar Bertrand Russell nem Aristóteles, nem falar difícil. É só despertar a curiosidade e provocar o encanto das crianças pela Palavra e pela Razão. Das crianças — e também dos adultos que ainda não perderam a vontade de aprender e questionar.

Tudo isso está no meu livro Lógica para Crianças, onde, na página 248, eu digo que, ao analisar as possíveis respostas à citada questão (queda no deserto), começo perguntando quantos litros tem um balde. Afinal, balde não é unidade de medida. Ou seja, a pergunta refere-se a balde do tamanho de um barril ou de um dedal? Se você caísse sozinho ou com mais pessoas? Outro dado importante: gelo do quê? De água ou, por exemplo, de amônia? E se for gelo de água, potável, ou não? O deserto seria de areia, como do Atacama, ou deserto de gelo, como na Antártida? Ao lado de um oásis, ou a 500 km da cidade mais próxima? Outra coisa que acaba determinando o resultado da queda: cair de que altura? Com paraquedas ou sem? E assim por diante...

3.3.18

pao da mae

Pão da Minha Mãe

2 copos médios de água morna.

2 colheres de sopa de açúcar União
1 colher de sal Cisne
1 ovo de galinha nova
1 copo de óleo de girassol
1 kg de farinha de trigo argentina
50 g de fermento de padaria boa.

1. Misturar o fermento na água morna, delicadamente. Cinco minutos, mais ou menos.

2. Levar ao liquidificador: o açúcar, o óleo, o sal, o ovo (sem a casca) e a água com o fermento. Tudo muito calmamente, sem pressa.

3. Bater essa mistura por uns dois ou três minutinhos. Sem violência...

4. Colocar a mistura numa bacia grande e acrescentar o trigo aos poucos, misturando com as mãos. A quantidade de trigo será suficiente quando a massa não grudar mais nas tuas mãos. Esse procedimento demora perto de meia hora. Por isso, coloque uma boa música de fundo e vá meditando enquanto amassa.

5. Depois de pronta, deixar a massa quieta, crescendo e suspirando por 1 hora, mais ou menos, coberta com um paninho de algodão.

6. Dividir a massa em partes e enrolar os pãezinhos em tamanhos parecidos ao de uma latinha de refrigerante. É só uma sugestão. Com o tempo, você mesmo vai decidir o tamanho ideal.

7. Colocá-los numa forma grande, dando espaços entre um e outro, porque vão crescer ainda mais. Ou colocar naquelas forminhas individuais, que a Joyce me deu.

8. Deixar crescer novamente por uns 30 ou 40 minutos.

9. Levar ao forno para assar, por meia hora mais ou menos. Dar uma olhada de vez em quando, pois o resultado vai depender da temperatura do forno. Cuidado para não queimar as mãos.

10. Depois de pronto, deixar esfriar um pouco, fazer um café... e convidar os deuses para o banquete.


Obs: Também é possível colocar um pedaço de queijo branco ou de linguiça calabresa (já cozida) dentro de alguns pães, no item 6 acima. Fica uma delícia! Mas isso pode ficar para uma próxima experiência...


O nome dela é Iracy — que em tupi-guarani significa "a Mãe do Mel".