Desapego

OLHAI OS LÍRIOS DO CÉU

Eis uma verdade incontestável: todos os grandes mestres — religiosos ou não — desde os primórdios da História, nos dizem que o apego é a doença mais grave que pode acometer um ser humano. Olhai os lírios do campo e os pássaros do céu, dizia um deles. O apego está na origem da corrupção, da inveja, da cobiça, do roubo e do ciúme — entre outras maldades. É uma demonstração cabal de insegurança e falta de personalidade. Entretanto, se você tiver necessidade compulsiva de apegar-se a alguma coisa, apegue-se logo a uma BMW conversível, e não a uma canequinha de lata. Por que amar um crocodilo se você pode amar um Deus? Apegar-se a uma coisinha comum, é imperdoável. É como apegar-se a uma canequinha de lata, ou a um saquinho de tranqueiras... É ridículo!


O foco desse meu texto tem duas vertentes básicas. A primeira é o horror ao apego. Mas deixei uma alternativa para quem não consegue livrar-se dele. Que possa então escolher algo mais interessante para apegar-se: algo melhor do que uma canequinha de lata. Algo que possa dar mais prazer. Suponho que uma Ferrari vermelha dê mais prazer do que uma canequinha de lata. Mas nem todos concordam com isso. Tem gente que nem dirige...

A segunda é a confusão entre apego e amor. Entre apego e gosto, preferências, escolhas, desejos. Eu gosto muito de pão e café: será que sou apegado a pão e café? Eu gosto de vinho e estrelas, eu amo a liberdade, eu amo a minha mãe, eu amo meus amores: será que sou apegado a isso tudo? Claro que não. Porque sou zen. E porque sou zen e lógico, suponho que sou zen. Entretanto, tem gente que se apega a beijos, a flores, amores.

Tudo vem da cabeça. Até o coração vem da cabeça. Inclusive os olhos. E os meus olhos se arregalam, mesmo, diante de uma Ferrari vermelha. Diante de uma obra de Niemeyer, de um poema de Neruda, de um sorriso de criança. Meus olhos se arregalam diante de um belo corpo de mulher. Meus olhos vivem arregalados... E se isso for demonstração de apego, contradigo a minha própria zenidade.

Acho que esse assunto ainda vai longe.

Um comentário:

Edson Marques disse...


Mas meus olhos se arregalam por contemplação, não por desejo de posse.